Mensagem numa garrafa - ou num milhão de garrafas?

A idéia de um humano, sozinho em uma ilha, arremessando uma garrafa com um bilhete dentro é clara para todos. É um pedido solitário de socorro que, se funcionar, chegará a um só lugar. Quando alguém publica um texto na web, e hoje sabemos que até crianças em situação de rua e guardadores de carro gastam parte do que apuram em cybercafés, o alcance é teoricamente ilimitado. Cada mensagem pode ser mandada em um milhão de garrafas. É esse o espírito da economia do conhecimento.

Pouca gente tem tratado desse tema em linguagem acessível, mas um autor pouco divulgado por aqui me convenceu. Em seu excelente livro Intangibles*, que me foi indicado por Lawrence Prusak quando em visita a Brasília, Baruch Lev explica que a competitividade resultante da desregulamentação e o deslocamento de mercados gerou um tipo de competição diferente, centrado em inovação e intangíveis. Também se ancorou muito na computação e em outros avanços da área de tecnologia de informação.

Lei da escassez ou rivalidade de ativos

Essa necessidade impôs processos bastante marcantes de reorganização, pois as empresas eram principalmente preocupadas com o que possuíam e produziam em meios físicos. Era uma cultura em que a tangibilidade determinava os fazeres e em que, por conseguinte, as transações econômicas internas e externas sofriam com o princípio da escassez ou rivalidade dos ativos. A idéia é simples: uma mesa é um ativo escasso. Se estiver à minha frente, não pode estar à sua. Eu sou uma ativo escasso. Se estiver trabalhando na organização A num determinado instante, não poderei fazê-lo para B.

Assim, o dinheiro investido na produção de um ativo fica imobilizado fisicamente naquela unidade e o custo marginal para produção e disponibilidade de cada outra mesa será sempre determinado pela materialidade de uma nova peça. É óbvio que há outros determinantes que devemos levar em conta na gestão conhecimento, mas este primeiro fator, o da escassez, tem que ficar claro antes.

A disponibilidade de um produto resultará sempre de, pelo menos, dois tipos de custo, um de pesquisa e desenvolvimento, ou seja, de concepção, e outro de realização do produto concebido.

O primeiro tem um apelido em inglês, sunk (afundado), que também faz sentido em português, pois representa o dinheiro enterrado na fase inicial do projeto. Se os testes de mercado indicarem falha do produto, não haverá como recuperar o investimento.

O segundo tipo de custo é o chamado marginal e corresponde ao que se gasta para colocar no mercado cada próxima unidade. Este é, sabidamente, menor ao largo da história do produto, sempre que aplicável a noção de economia de escala. Mas, mesmo assim, haverá sempre, na cultura dos tangíveis, alguma materialidade e os custos dela resultantes.

Como dizia, a reorganização das empresas se baseou muito nos avanços de TI, resultando em processos e custos transacionais mais baixos, sobretudo para a informação. O outsourcing transportou a produção material para “o outro” e as grandes empresas entenderam ser mais relevante investir em pesquisa e desenvolvimento, visto que a sobrevivência de suas marcas dependia mais de fatores imateriais como a percepção dos clientes sobre seus produtos e a relação com eles estabelecida.

Note-se que ambos os fatores impulsionaram o desenvolvimento de comunidades intensas em manipulação de conhecimento, que pode, numa acepção contemporânea, ser entendido como informação derivada de interações e aplicada a alguma estratégia.

A beleza da economia dos intangíveis é a possibilidade de se multiplicar unidades de explicitação do conhecimento a um custo marginal muito baixo. É a multiplicação dos pães, do fermento intelectual e a possibilidade de acelerar processos de transformação nas organizações e sociedades.

Ventos favoráveis e icebergs

O avanço da cultura de código aberto joga favoravelmente e os motivos são óbvios. Mesmo os rumos dos mercado de TI e telecom impulsionam hábitos de compartilhamento, valendo-se do produzido pelos internautas e netizens em sua busca voraz por conteúdos.

Mas falamos de um mercado totalmente caótico e, embora pense francamente que deva continuar assim, sem controle, também entendo que aquelas pessoas implicadas com gestão da estratégia e do conhecimento devem olhar mais cuidadosamente para a periferia das relações na web do que para o núcleo duro de negócios que se estabelece pelas vias formais e institucionais.

Há processos incríveis de comunicação sendo levados a termo na web, anos luz do que se pratica nas organizações que andam pelo mainstream. Mas a maioria ainda busca formas de sair do “folder eletrônico”, com fluxos de produção ancorados em pelo menos três grandes filtros: os chefes, assessores de comunicação e as áreas de TI. Nesse cenário, uma nota ou unidade explicitada de conhecimento, pode levar dias para chegar à web. Enquanto isso, a gente blogueira de vanguarda escreve, fotografa, filma, posta e abre o debate em matéria de minutos.

Conhecemos bem os porquês disso. O que desagrada os mamutes institucionais nesses sistemas de ponta é, pelo lado dos chefes, a pouca possibilidade de controle dos conteúdos que vão a campo e, da parte de quem produz conteúdos, a velha noção de que conhecimento é poder.

Alguém precisa convencer essa gente que Francis Bacon teve sua importância já há alguns séculos e que, no mundo corporativo moderno, o que funciona não é controle, mas compromisso.

* Intangibles – Baruch Lev, Brookings Institution Press, Washington, DC, 2001

2 comments

  1. Ferdinand 8 Janeiro, 2011 at 23:56 Responder

    Ótimo texto, foi direto ao ponto crucial.

    Mostra claramente como o mundo mudou e boa parte de nossas empresas não acompanharam/ perceberam ainda este aspecto/paisagem.

    • Mario Salimon 9 Janeiro, 2011 at 19:57 Responder

      Obrigado por comentar Ferdinand. É verdade o que diz. Escrevi o texto há quase três anos e, mesmo com toda a aceleração das mídias sociais, o foco ainda está no controle e seguiria fazendo as mesmas afirmações. Visite meu site quando puder para mais textos: http://www.mariosalimon.com

      Abraços

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