Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes

Wikinomics (Tapscott 2007) - capaDesde que foi publicado, em 2006 (no seu original), que o livro “Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes” tem estado nas bocas do mundo empresarial. Uns vêem nas ideias de Tapscott e Williams a descrição de um cenário inevitável em que nos encontraremos daqui a poucos anos; outros questionam a ideia de um mundo colaborativo, classificando de utópica a visão dos autores.

Estas reacções são, aliás, reflexo da posição das organizações a nível mundial face às oportunidades e aos desafios que se colocam: algumas abraçam os princípios da wikinomia (a Sony, por exemplo); outras rejeitam-nos, não sabendo como reagir quando o mercado não responde da forma esperada (sendo a Apple um caso desses).

A “wikinomia” é a “nova arte e ciência de colaboração” capaz de causar “mudanças profundas na estrutura e no modo de funcionamento da empresa e da economia” (p 11). Estas novas mudanças estarão acentes em quatro princípios fundamentais:

  • abertura - “faz com que seja realçado o verdadeiro valor de uma empresa e obriga todas as empresas a competirem num território equlibrado” (p 299)
  • trabalho com os pares - “maneira de produzir bens e serviços que assenta completamente em comunidades auto-organizadas e igualitárias de indivíduos que se juntam voluntariamente para produzirem um resultado partilhado” (p 77) “no sentido de impulsionar a inovação e o crescimento das respectivas indústrias” (p 18)
  • partilha
  • acção global.

Depois de descrever os contextos económico, social e tecnológico mundiais que estão na origem da wikinomia, os autores debruçam-se sobre as faces que a wikinomia está a tomar nas organizações mundiais:

  • trabalho com os pares que resulta no código aberto, por exemplo
  • ideágoras, como por exemplo a InnoCentive e a yet2, onde as ideias são disponibilizadas para benefício de organizações que delas necessitem
  • nos prosumidores, isto é, consumidores de bens e serviços que participam activamente na sua concepção, criação e fabrico (como por exemplo os membros do Second Life, ou os dedicados amantes da Lego Mindstorms)
  • a forma como empresas têm optado por partilhar dados e conhecimento de forma a permitir o trabalho e a intervenção de uma maior massa crítica no processo de inovação e descoberta (e.g. as farmacêuticas)
  • plataformas de participação onde o fácil acesso à informação fomenta e acelera a inovação (e.g. Google, Amazon, BBC). Estas plataformas podem adquirir especial relevância no envolvimento dos cidadãos na vida política, económica e social.
  • ecossistemas planetários que envolvem pessoas e empresas em todas as fases de criação de um novo produto ou serviço, com partilha de riscos e benefícios. A cadeia de abastecimento dá lugar à cadeia de valor (e.g. Boeing)
  • o local de trabalho wiki, onde uma força de trabalho jovem e dispersa encara as ferramentas sociais como a norma (e.g. Geek Squad, Socialtext).

Ao abordar os temas anteriores, são abordadas algumas questões interessantes e pertinentes que vale a pena referir. Nomeadamente:

  • a Geração Net e as suas normas de velocidade, mobilidade, autenticidade e diversão e os seus desejos de criatividade, conectividade social, liberdade e diversidade
  • a relação entre as empresas e as universidades
  • o papel das instituições públicas na investigação e desenvolvimento básicos
  • o código aberto
  • a recompensa económica atribuída, ou não, a quem trabalha em plataformas de colaboração, por exemplo
  • as competências que são agora necessárias aos líderes (como saber integrar o trabalho de elementos dispersos da equipa, por exemplo) e aos trabalhadores do conhecimento (como saber usar um wiki).

O décimo primeiro capítulo do livro, um manual da wikinomia, está a ser criado online... num wiki.

A wikinomia está a provocar grandes alterações na estrutura, na estratégia, na força de trabalho das organizações. Os pressupostos questionam-se e muitas organizações não estão a ser capazes de se repensar em face dos novos comportamentos e expectativas dos seus clientes e colaboradores.

A experiência de várias empresas serve para os autores fazerem recomendações e previsões. Serve também para identificarem os benefícios e os desafios que terão de ser ultrapassados.

O livro está repleto de exemplos de organizações, públicas e privadas, que têm abraçado a wikinomia (e.g Goldcorp, Procter & Gamble, IBM, Merck, Linden Labs, etc..). Inclui também exemplos de outras organizações que estão a sentir grandes dificuldades, não tendo ainda sido capazes de mudar a sua forma de actuar e de olhar o mundo dos negócios segundo a nova perspectiva.

Como único ponto negativo, devo referir que para mim não é totalmente clara a distinção entre os quatro princípios (abertura, trabalho de pares, partilha, acção global) e entre os cenários da wikinomia que os autores apresentam. Parece-me que os princípios e os cenários estão, na sua maioria, tão interligados que não vale muito a pena distingui-los e muito menos apresentá-los em separado.

Tendo lido apenas a tradução portuguesa do livro, posso dizer que o texto está muito bom e que o livro se lê bastante bem (Para aqueles que sabem que demorei imenso tempo a acabar de ler o livro, tenho de dizer que a culpa foi minha e não do livro.)

Não posso ainda dizer o impacto que este livro terá na forma como vejo a minha vida profissional e as lentes com que farei recomendações às empresas com quem trabalho. No entanto, sinto que a mensagem deste livro terá um impacto significativo na forma como irei pensar, quanto mais não seja, a actividade da Knowman.

Para finalizar, sugiro que acompanhem o blog Wikinomics onde podem acompanhar as observações e opiniões dos autores deste livro e de outros membros da equipa que com eles trabalha.
Wikinomics (Tapscott 2007) - capaSobre o livro:
Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes
Don Tapscott e Anthony D. Williams. Quidnovi, Portugal, 2007.

9 comments

  1. João Assunção 7 Agosto, 2009 at 14:32 Responder

    Obrigado Ana pelo resumo. Não posso deixar de concordar contigo no que dizes sobre as supostas divisões. Por vários motivos (talvez o nosso mundo em “rede”) é cada vez mais dificil dividir quando acaba algo e começa outro tema. Engraçado como estes temas que não há muito tempo eram tecnológicos são actualmente temas socias e de comportamento.

  2. José Dinis 10 Junho, 2010 at 21:54 Responder

    Ana Neves

    Pois… Na sequência do seu evento “Organização 2.0: Ferramentas Sociais nas Organizações”, fiquei muito mais sensibilizado para este tema. Assim, seguindo algumas das suas dicas, vim ler e reler alguns dos seus textos (que, diga-se em abono da verdade, em Portugal constituem uma Referência, onde a partilha de conhecimento é uma prática a relevar) e aqui vim parar ao “wikinomics”. Também eu, mesmo sem ter lido o Livro, o que farei logo que possível, mas apenas com este seu resumo, estou ciente que estas reflexões me levam a pensar de outra forma, ficando desperto para utilizar mais algum do meu tempo particular e profissional, acerca da utilização das ferramentas da “Organização 2.0”; neste caso, sem pensar numa perspectiva de que estou a “perder tempo”, mas a ganhar algo que me possa ser útil hoje ou amanhã, neste Mundo em Rede Interdisciplinar.

  3. Ana Neves 14 Junho, 2010 at 10:00 Responder

    Obrigada José, pelas suas simpáticas palavras e pela sua reflexão. Na verdade, a forma de pensar e actuar das pessoas está a mudar, estando estas a tirar grande partido das ferramentas sociais para alargar a sua rede de contactos, diversificar o tipo de comunicação com os membros dessa mesma rede, criar oportunidades a nível pessoal e profissional, etc.. Isso significa duas coisas: a) que algumas organizações estão a mudar porque estão a dar espaço para que as pessoas transfiram essa nova forma de estar para dentro das organizações,; b) que as organizações que não estão a mudar têm de o fazer sob pena de perderem o contacto com a realidade dos talentos que querem atrair e dos clientes que precisam conquistar.

    Quanto ao comentário do João… bem, não podia estar mais de acordo: a web 2.0, as organizações 2.0, não são uma questão tecnológica mas antes social. As pessoas e as organizações têm de se actualizar a nível técnológico mas, acima de tudo, têm de rever a forma como trabalham e se relacionam; têm de perceber quais os comportamentos aceitáveis numa sociedade online que agora se vai definindo.

  4. José Dinis 15 Junho, 2010 at 00:38 Responder

    Ana e João

    Desculpem, mas no contexto da Gestão de Sistemas de Informação (GSI), onde me parece inserir-se a “Wikinomia” seguindo o modelo do manual “Management Information Systems by K. Laudon, J. Laudon” (cujo modelo considero muito adequado para a análise da GSI), um SI caracteriza-se composto por três dimensões (a Organizacional, a da Gestão e a das Tecnologias de Informação), contribuindo todas para um SI que se pretende satisfaça às necessidades de uma entidade pública ou privada (empresa), para fazer face aos próprios desafios da sua envolvente interdisciplinar. E, sempre que esse SI já não satisfaz às exigências para garantir os objectivos do respectivo negócio, então, haverá que analisar qual ou quais das dimensões onde se devem introduzir adaptações, modernizações ou transformações, para o SI voltar a dar as respostas adequadas.

    Assim, as alterações necessárias podem ser predominantes de natureza tecnológia, ou organizacional ou de métodos de gestão… ou um pouco de cada uma delas…

    A conclusão é que, para se satisfazer a uma análise holística de um problema desta natureza, são necessários empreendedores híbridos, com competências interdisciplinares, que não se deixem levar pelas soluções tecnológicas, pois estas podem ajudar, mas o fulcro da questão pode estar noutra das dimensões… onde a dimensão humana é cada vez mais relevante, no entanto, a evolução tecnológica não se deve minimizar…

    Aqui fica mais esta reflexão, talvez um pouco complexa para abordar, de uma forma muito sintética, e… nem sempre alguns momentos ajudam a uma inspiração clarividente…

    • Ana Neves 15 Junho, 2010 at 11:17 Responder

      José, começa por pedir desculpa como se fosse discordar dos comentários anteriores mas, daquilo que me é dado perceber dos comentários do João e dos seus e daquilo que é a minha opinião, parece que estamos todos de acordo. A tecnologia e as questões sociais (ou de acordo com o modelo que refere, as dimensões Organizacional, da Gestão e a das Tecnologias de Informação) devem andar de braço dado: umas não funcionam sem as outras. E o segredo está em perceber quando puxar, com que força puxar e em que sequência puxar cada um desses fios para que o resultado seja o mais eficaz possível.

      Obrigada por mais este comentário, sempre oportuno.

  5. AnaDataGirl 15 Junho, 2010 at 11:35 Responder

    Este post merecia um comentário demorado e pensado. Mas entre escrever o comentário “ideal” daqui a muito tempo, ou um comentário pessoal e “good enough” agora, opto pela 2ª via 🙂

    Li o Wikinomics (versão revista & aumentada e em inglês) nas férias de Verão de 2009 (fica sempre bem levar um livro destes para a praia 😉 ) e confesso que não esperava que causasse tanto impacto em mim! Posso concordar ou discordar da visão de futuro do Don e do Anthony (sendo que na sua maioria concordo) mas os exemplos retratados e as conclusões daí derivadas abriram-me os olhos para mundos que eu desconhecia. Fizeram-me compreender os movimentos de peer-to-peer e open source, perceber a história do Linux, compreender a importância do Creative Commons, descobrir o Innocentive, perceber porque na esfera 2.0 se fala tanto da BBC, da P&G ou da IBM, descobrir a iniciativa de limpeza das florestas da Estónia que tão bem soubemos replicar, e ver o lado positivo da vida em rede (ao contrário do sensacionalismo negativo tantas vezes procurado pelos media tradicionais). Quantos livros conseguem isto?

    Basicamente foi através do Wikinomics que obtive a visão de “helicópetro” necessária para compreender as bases (e consequências) de “fenómenos” como a Web 2.0 e Enterprise 2.0.

    Pessoalmente aconselho a leitura, e aguardo com expectativa o novo livro dos autores (MacroWikinomics) a ser editado este Outono. E ainda não desisti da ideia de trazer o Don Tapscott à minha terra, de que por sinal ele tanto gosta 🙂

    • Ana Neves 15 Junho, 2010 at 11:41 Responder

      Obrigada, Ana, pelo seu comentário e pela paixão que dele transpira. Aliás deve-se certamente ao facto de ter optado pela 2ª opção, o que muito lhe agradeço 🙂

      Sim, este é um daqueles livros que marca: podemos não concordar com tudo mas não conseguimos ficar indiferentes já que nos faz considerar as coisas de novos ângulos, questionar aquilo que sempre fizemos e a forma como sempre o fizemos…

      E no seu entender, Ana, tecnologia, social, ou tecnologia e social? 🙂

  6. Hugo Ravara 28 Junho, 2010 at 12:05 Responder

    Não considero o 1º exemplo muito feliz. A Sony sabe gerir por abraçar a inteligência colectiva e a Apple não sabe o que fazer? Meus caros, sejamos pragmáticos e olhemos para os resultados de cada empresa.

    • Ana Neves 28 Junho, 2010 at 17:59 Responder

      Hugo, agradeço o seu comentário. Na verdade é interessante ver a forma como, até certo ponto, o exemplo dos autores quase mostra que, afinal, ainda vale a pena apostar na “velho” economia. Qual a sua perspectiva sobre este assunto, isto é, sobre a forma como a “wikinomia” está a afectar a forma de actuar das empresas?

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