“Oops, I did it again”, é um refrão que se aplica a mim. Distraio-me e dou por mim no meio de mais um projeto bicudo. Não é que os desenhe para serem assim ou que os queira complicados. É simplesmente porque o que os torna bicudos, o que faz deles diferentes, são os elementos que sinto necessidade de introduzir para que alcancem o seu propósito.
Foi o caso do GRAV, uma plataforma para vítimas de violência de género. Foi o caso da conferência Social Now com um formato que demorava mais do que uma frase para explicar. É o caso do The Intranet Hub, que oferece valor muito além de “apenas” aceder a capturas de ecrã.
O desafio? Quando estou a trabalhar num projeto pouco convencional, e embora tudo esteja totalmente óbvio e claro na minha cabeça, pode tornar-se difícil comunicá-lo de forma que também fique claro para os outros.
Após meses de paixão, tempo e energia num projeto, por vezes deixo de ver as suas falhas: as lacunas na lógica, as explicações pouco claras, até os erros tipográficos… Há muito que se torna invisivel para mim. É exatamente por isso que valorizo o feedback honesto, mesmo quando dói.
Além do elogio
É claro que gosto de ouvir coisas boas sobre o meu trabalho. Mas apenas se forem genuínas. O que realmente quero é que as pessoas me digam o que veem e sentem. Como é que os outros o vão perceber? Que desafios enfrentará? Este tipo de feedback é o que realmente me ajuda a melhorar a ideia, comunicá-la melhor e construir algo mais bem-sucedido.
No nosso mundo de gostos e reações rápidas, este feedback genuíno tornou-se raro. Sei que muitos dos gostos nas minhas publicações vêm de pessoas que estão simplesmente a ser simpáticas. Gostam do meu trabalho e querem mostrar apoio. Mas por vezes nem sequer leram o artigo. Não há nada de errado com esta gentileza, mas não é o mesmo que feedback.
O feedback real requer algo que a maioria das pessoas não tem: tempo. E não apenas tempo para consumir o conteúdo, mas tempo para pensar sobre ele, processá-lo e articular uma resposta ponderada.
O meu feedback
Olhemos para críticas de livros. Afinal, são um tipo de feedback.
Tenho escrito críticas de livros desde 2001: 122 livros até à data. Leio cada página porque não acho justo dar uma opinião (que pode influenciar a perceção de alguém) sem ler o livro inteiro.
Este mesmo princípio aplica-se quando dou feedback. Se alguém partilha um rascunho pedindo a minha opinião, leio cada palavra e forneço feedback escrito detalhado. Pode nem sempre ser agradável de ler, mas vem de um desejo genuíno de ajudar.
Há alguns anos, um colega pediu-me para rever o rascunho de um livro que estava a escrever com outra pessoa. Dei-lhe imenso feedback, apontando, por exemplo, onde se notavam as diferentes vozes dos dois autores e questionando a necessidade de um capítulo que haviam incluído. Ele não aceitou todas as minhas sugestões, mas simplificou a escrita e eliminou esse capítulo.
O feedback afeta-me
O feedback que me afeta mais profundamente é o tipo que questiona trabalho que faço há muitos anos ou coisas de que tenho particular orgulho. Admito: amuo. Fisicamente. Podem vê-lo na minha cara e nos meus ombros. Mas mais tarde, recomponho-me, reflito sobre o que me foi dito e extraio o que posso usar para melhorar.
Quando tive a ideia de criar um blogue fictício para uma das personagens da Cablinc narrar a vida profissional na empresa fictícia criada para a Social Now, discuti a ideia com várias pessoas. A maioria disse que era uma perda de tempo, que ninguém o leria.
Não fiquei totalmente convencida, pois pensei que o que tinha na minha cabeça era mais do que o que estava a conseguir transmitir. Avancei mas reformulei as minhas expectativas e mudei o propósito principal do blogue. Decidi também investir muito menos tempo do que originalmente antecipava.
Fico feliz por ter avançado. Também estou muito grata pelo feedback que me deram, pois hoje estaria a lamentar se tivesse investido mais do que investi.
Até as pequenas coisas
Ganho o dia quando alguém me envia um email sobre um erro tipográfico numa das minhas publicações. Leram o meu trabalho com atenção suficiente para reparar, e conhecem-me suficientemente bem para perceber que ficarei grata pela oportunidade de corrigir o erro.
Dar feedback honesto e detalhado é também uma das coisas mais generosas que se pode fazer pelo desenvolvimento profissional de alguém. Dar feedback detalhado é dizer : “Acredito no teu trabalho o suficiente para nele investir o meu tempo, e acredito que és suficientemente forte para lidar com a minha opinião sincera.”
Coragem?
Pedir feedback pode ser visto como um ato de humildade. Num mundo que recompensa certezas e auto-confiança, esta admissão requer coragem.
Não o vejo assim. Para mim, pedir feedback é… normal. Tenho confiança no meu conhecimento e no meu trabalho, no entanto estou sempre a pedir feedback.
A semana passada estiva a gravar uma entrevista que será usada para uma formação assíncrona. Depois de gravarmos a primeira parte, pedi feedback à minha entrevistadora. Disse que estava tudo a ir muito bem, mas até eu conseguia ver que havia coisas a melhorar.
Sou adulta. Se não gostam de algo que disse, fiz ou estou a pensar fazer, por favor digam-me. Posso não concordar, posso escolher não agir sobre isso, mas vou sempre considerá-lo. E vou sempre agradecer-vos por isso, nem que seja apenas porque acharam o meu trabalho digno do vosso tempo e atenção.
Quando alguém me dá feedback substantivo, não está apenas a oferecer a sua própria perspetiva: está a investir a sua energia mental no meu trabalho.
Não aprecio críticas sem substância nem feedback dado sem a intenção de ajudar. Mas valorizo e agradeço imenso feedback genuíno: esteja ele a apontar uma falha no meu pensamento ou um erro tipográfico num atigo.
As pessoas que dão feedback ponderado também valorizam recebê-lo. Investimos tempo a oferecê-lo porque sabemos, nós próprios, o valor de o receber.
E, a propósito de feedback: será que posso pedir para me dar o seu feedback na caixa de comentários abaixo? O que achou deste texto?
Nota: Esta é uma tradução bastante livre de um texto originalmente publicado no LinkedIn em língua inglesa.






Olá, Ana! Na correria dos dias e no chorrilho de emails, nem sempre damos a atenção devida, mas o facto de referir que se estava a sentir sozinha captou a minha atenção para o email pendente da sua newsletter que tinha marcado para ler estes dias. Gosto muito da sua abordagem aos temas, de forma simples, mas não menos séria ou cuidada; simples no sentido de verdadeira, sem rodeios, nem “floreados”. Aprecio os temas e saber dos inúmeros projetos em que está envolvida (ou esteve), são da maior relevância para mim. As iniciativas e conferências de KM é uma informação muito relevante para mim, pois trabalho nesta área e a informação é sempre escassa nesta área… ou saber o que realmente importa. Obrigada! E, embora com pouco feedback, estou atenta deste lado, sempre atenta 😉
Que maravilha que foi ler este seu feedback, Eunice! Muito obrigada por estar desse lado. Não faço nada do que faço para receber agradecimentos mas é bom saber que há alguém do outro lado.
Olá Ana! Adorei o seu texto. Me fez refletir sobre mim mesma, como eu encaro um feedback. Acho que nunca havia parado para pensar nisso. Na verdade, confesso que tenho uma grande dificuldade em dar feedbacks por medo de magoar as pessoas. E me identifiquei muito com você quando disse que o feedback que mais te afeta é o que questiona o seu trabalho. Eu também me aborreço mas tento sempre ponderar e tirar algo positivo da situação.
Um grande abraço!
Muito obrigada, Mônica! É isso mesmo – ouvir, encaixar, ver se faz sentido, e usar para melhorar.
Espero que o que partilho continue a ser útil e conto também com o seu feedback para continuar a melhorar.
E como eu sentia falta de receber comentários diretamente aqui no site do KMOL…