Vou colocar uma vírgula nas minhas Sugestões às Sextas. Isto é, vou fazer uma pequena pausa de três semanas.
Antes de ir, e depois de já ter deixado várias sugestões relacionadas com palavras – aqui e aqui -, é tempo de vos deixar três sugestões relacionadas com pontuação.
Travessão
Muitos já terão reparado que a IA generativa tende a usar bastante o travessão (em inglês “M dash” ou “em dash”). Inclusive, há quem veja um travessão como motivo para pensar que o texto foi produzido com a ajuda de uma ferramenta de IA.
Foi neste contexto que a agência criativa Cocogun criou duas novas fontes: Areal e Times New Human. O grande propósito destas fontes é incluir um travessão que, pelas suas características, se perceba não ter sido gerado por IA. Vale a pena visitar o site que lhe dedicaram — pelo seu grafismo e porque o próprio texto é bastante bem humorado.
Enquanto me divertia com este tema, descobri, no site Bibliotrónica Portuguesa, o porquê do nome “M dash”:
“o travessão (…) pode assumir dois tamanhos: o do M, chamado M dash (ou quadratim), e o do N, chamado N dash (ou meio-quadratim)”
Nem de propósito, esta semana Pedro Matos Viegas partilhou no LinkedIn um post em que defende que o travessão não é crime.
Vírgula
Esta outra sugestão desta sexta-feira é um outro post de Pedro Matos Viegas: “Não deixem a vírgula morrer”.
Para além de pedagógico, o post está muito bem escrito e vale a pena ler na íntegra. Ainda assim, não posso deixar de transcrever algumas frases porque merecem não ficar perdidas no oceano turbulento e pouco transparente que é o LinkedIn.
“a vírgula do vocativo é das últimas coisas boas que nos restam (…)
A vírgula do vocativo é aquela pausa mínima, quase carinhosa, que separa quem diz de quem ouve. A vírgula entre o gesto e o nome. Não serve só para respirar. Serve para reconhecer. Para dar ao outro o lugar na frase que merece ter na vida. “Bom dia, Sónia.” é uma coisa. “Bom dia Sónia” é outra. Uma cumprimenta. A outra despeja. Uma sabe que há alguém ali. A outra já desistiu de fazer esforço. (…)
A vírgula no vocativo não serve a gramática. Serve a humanidade. É o lugar onde o outro mora na frase.”
Obrigada, Pedro.
Ponto final
E, para terminar, um ponto final. Ainda que isto se aplique a outros sinais de pontuação.
Esta sugestão vem da newsletter do David Gurteen que já aqui entrevistei: a 302ª Gurteen Knowledge Letter de agosto 2025.
O David descobriu recentemente que a razão pela qual os sinais de pontuação são colocados dentro das aspas de citação. Ele diz que nunca tinha entendido, que não concordava e que não aplicava esta regra. Confesso que estou no mesmo barco. E vamos continuar porque:
“It seems, in the days of lead type, tiny punctuation marks broke easily at line ends. Typesetters tucked them inside quotes to prevent damage. What began as a workaround eventually turned into a convention, then a rule, even after the technology moved on.”
Incrível, não acham? E isto, diz David Gurteen, é um exemplo de dependência de trajetória (em inglês, path dependency), um conceito das ciências sociais que explica como constrangimentos do passado continuam a moldar práticas atuais.





