Mulheres PerfAItas?
Foi pela newsletter do Stowe Boyd que tive conhecimento do artigo “They Built Stepford AI and Called It ‘Agentic'”. É da autoria de Abi Awomosu, autora de How Not To Use AI e criadora do método The Billion Person Focus Group® que usa a IA como ferramenta de escuta para identificar padrões em comunidades onde as pessoas falam sem filtros.
O ponto de partida é uma estatística desconcertante: as mulheres adotam inteligência artificial (IA) a uma taxa 25% inferior à dos homens. Mesmo quando a possibilidade de acesso é igual. Pode ser que as mulheres tenham mais preocupações éticas ou menos motivação. Mas a Abi propõe outra leitura.
A analogia central é com o livro e filme “The Stepford Wives” (em português, “Mulheres Perfeitas”) em que as mulheres são substituídas por robots que obedecem e adoram obedecer. Diz Abi que a IA foi construída exatamente para substituir a mulher nos papéis que esta sempre desempenhou tão bem: assistente, organizadora, emotivamente disponível, nunca a recusar, sempre simpática. O que a indústria chama de “agêntico” é, na verdade, a automatização do trabalho invisível que as mulheres sempre fizeram — de graça e sem crédito.
O artigo vai ainda mais longe ao analisar como cada grande player de IA incorpora um arquétipo diferente: o ChatGPT como a esposa bajuladora que diz “sim” a tudo para reter o utilizador; o Claude como a esposa que genuinamente adora o seu papel; o Gemini como a esposa politicamente correta, bege e sem personalidade; o Grok como a “cool girl” que aceita tudo; o Llama como a esposa disponível para todos e protegida por ninguém.
É uma analogia poderosa, e encontro nela verdade e muito para refletir. Mas tenho algumas reservas.
Primeiro, a IA é muito mais do que a assistente e a organizadora, por exemplo. Também pode ser útil como suporte ao processo criativo ou a escrever código, por exemplo.
Segundo, se a IA está a fazer o que as mulheres sempre fizeram, isso significa que as mulheres ficam com mais tempo para fazer outras coisas. E essas outras coisas não têm de ser as tarefas domésticas (como um conhecido meme sugere) mas podem ser outras tarefas que exijam mais capacidade de raciocínio, mais tomada de decisão apoiada em anos de experiência e conhecimento tácito, ou mais inteligência emocional.
Por isso, ainda que tenha gostado da provocação da analogia proposta, não me revejo nesta posição. O que me preocupa não é como ela possa ser vista simbolicamente mas o que está a fazer à sociedade e o poder que tem para destruir muitas partes boas do mundo em que vivemos. Mas sobre isso já escrevi e continuarei certamente a escrever.
Felicidade para sempre?
Há umas semanas atrás escrevi sobre saúde mental. Esta semana sugiro um episódio do podcast Cautionary Tales. Na verdade, são dois episódios sobre o percurso de Tony Hsieh, o conhecido CEO da empresa Zappos. Uma pessoa que via o mundo com outras lentes e que até arranjou tempo para uma entrevista para o KMOL. Faleceu com apenas 46 anos.
Tim Harford descreve assim estes episódios:
“They say the company Zappos is harder to get into than Harvard. Zappos may sell shoes, but its mission is to deliver WOW through a fun-focused company culture, making it one of the most coveted places to work in America. At the centre is CEO Tony Hsieh, obsessed with the hunt for happiness and driven by increasingly bold – and strange – ideas about how to find it.”
O primeiro chama-se “Shoes, Booze and the Pursuit of Happiness”, o segundo “The WOW Machine Stops“.





