Rapaz a preparar-se para entrar no mar

Tempo de mudança

Nadar e guardar a roupa

Todos já passámos por situações em que nos sentimos entre a espada e a parede. Em que temos a certeza de que vai haver consequências negativas qualquer que seja a nossa decisão. Não é fácil. Aliás, é muito difícil e desconfortável. Algo que pode ser vivido ao nível individual ou de forma coletiva – numa família, numa comunidade, numa organização.

Poder falar disso, poder chamar as coisas pelos nomes, ajuda. Muito. O Eugenio Moliní sabe chamar as coisas pelos nomes e sabe encontrar as palavras certas para o fazer.

Prova disso é este texto que explica tão bem o conceito de “duplo vínculo” (“double bind”), dando algumas pistas de como navegar essas situações e alertando para a toxicidade que resulta quando o duplo vínculo é silenciado.

A propósito: fiquei intrigada com o sub-título do artigo. Não conhecia a expressão “nadar y guardar la ropa“. Fui averiguar. Parece ser usada para descrever em situações em que queremos duas coisas incompatíveis, ou queremos algo arriscado mas minimizando os perigos. Mais uma expressão idiomática para a minha coleção mental.

Teorias de mudança

Quando, no ano passado, entrevistei o Eugenio Moliní aqui para o KMOL ele disse: “o que não funciona é quase universal, mas o que funciona é altamente contextual”. Não há fórmulas para a mudança. Há teorias. E as teorias precisam de ser testadas, questionadas.

Matt Stempeck, Director de Tecnologia e Democracia na Evens Foundation e criador do Civic Tech Field Guide, criou uma ferramenta gratuita que usa IA para ajudar a pensar, a testar teorias de mudança. Chama-se “Theory of Change“.

Começamos por descrever a estratégia que temos em mente (a ação e a mudança) e a ferramenta devolve os elos da cadeia que ligam a ação ao efeito pretendido, evidências que puxam contra e a favor, exemplos históricos e as assunções que se vislumbram por trás da teoria. Para além disso, é apresentado um pequeno workbook com perguntas relacionadas com o tema e que obrigam a pensar melhor antes de agir.

Há muito para admirar nesta “simples” ferramenta. A ideia, a utilização que faz da IA, os detalhes.

Adoro o facto de termos de passar com o rato por cima das assunções escondidas para as revelar. Uma forma de nos lembrar de que é crítico fazermos um esforço ativo e consciente para revelar os nossos preconceitos e ideias formadas. Que detalhe maravilhoso!

Theory of Change: output de teste a uma estratégia

Detalhes que fazem a diferença

O output da ferramenta Theory of Change vale pelo sumo mas também pela forma. É um bom exemplo de partilha de conhecimento, apresentando várias das táticas consideradas no artigo “Knowledge Sharing in practice: 3 approaches, 37 screenshots”.

Assim, esta terceira sugestão (a do artigo) traz consigo uma reflexão / provocação.

Olhando para o que a ferramenta produz, encontramos quatro elementos que merecem atenção:

  • A forma como apresenta informação vasta e complexa de forma simples e compacta. Não assusta. Não apresenta tudo, claro. Apresenta trilhos a seguir. Aguça a curiosidade. Convida a entrar.
  • A estrutura funciona como um template pedagógico. As “caixas” que organizam o output não são só conteúdo. São os aspetos a considerar quando se pensa e testa uma teoria. É conhecimento sobre como pensar, embutido na própria forma.
  • O workbook é simultaneamente um instrumento de trabalho que ajuda a pessoa no seu processo de reflexão pessoal.
  • E o campo de feedback no final é um exemplo perfeito do que o artigo descreve como prompts e convites: pequenas escolhas de linguagem e design que tornam a contribuição mais natural. “How did it go? Tell us what worked, what surprised you, or what was off.” É quase uma conversa.

Ainda que a ferramenta Theory of Change assente em IA, nada destes aspetos dependem disso. Dependem de uma intenção clara e consciente à partilha de conhecimento. Podem ser conseguidos com uma boa arquitetura de informação, boa curadoria e atenção aos detalhes. E num contexto organizacional, o conteúdo do workbook, em vez de ficar guardado apenas no browser de cada pessoa, como acontece nesta ferramenta, poderia alimentar a base de conhecimento coletivo.

Fica o convite a imaginar como algo assim poderia funcionar nas vossas organizações. Os 37 exemplos no artigo podem inspirar. E se quiserem passar da imaginação à ação, estou disponível para ajudar. E tudo pode começar com uma consulta na Intranet Clinic.


Foto do meu filho quando se preparava para entrar nas águas frias da Praia da Torre em Oeiras. A roupa dele estava comigo.

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