Esta sexta-feira, três sugestões a provar que as palavras dizem muito sobre o contexto em que vivemos: tempo e espaço. É por isso, aliás, que presto tanta atenção às palavras usadas nas organizações em que trabalho.
As palavras que ensinamos
Já aqui escrevi aqui sobre palavras, sobre como as palavras refletem e podem condicionar o mundo à nossa volta.
Jasmine Nackash comparou duas listas de vocabulário essencial para quem aprende inglês: a de 1953 e a de 2023.
O que encontrou é revelador. Saíram palavras concretas e tangíveis: animais, ingredientes, objetos do quotidiano. Entraram conceitos abstratos e sistémicos: mortgage, legislation, perspective, evaluation.
O pão ficou na lista. A farinha e o trigo, não. A vida afastou-se da sua própria produção e a linguagem foi atrás.
O formato é o que se espera do The Pudding: uma narrativa construída sobre dados, com visualizações interativas que nos convidam a explorar e aguçam a curiosidade.

Palavras do ano
A propósito de palavras que marcam o tempo. Em Portugal, a Porto Editora organiza desde 2009 a votação para a Palavra do Ano. No Brasil, a CAUSE e o Instituto de Pesquisa IDEIA fazem o mesmo desde 2016. É interessante olhar para as duas listas lado a lado.
| Ano | Portugal | Brasil |
|---|---|---|
| 2009 | esmiuçar | – |
| 2010 | vuvuzela | – |
| 2011 | austeridade | – |
| 2012 | entroikado | – |
| 2013 | bombeiro | – |
| 2014 | corrupção | – |
| 2015 | refugiado | – |
| 2016 | geringonça | indignação |
| 2017 | incêndios | corrupção |
| 2018 | enfermeiro | mudança |
| 2019 | violência doméstica | dificuldades |
| 2020 | saudade | luto |
| 2021 | vacina | vacina |
| 2022 | guerra | esperança |
| 2023 | professor | mudanças climáticas |
| 2024 | liberdade | ansiedade |
| 2025 | apagão | incerteza |
Já agora, deixo um infográfico da Visual Capitalist que compara as Palavras do Ano escolhidas por cinco grandes dicionários de língua inglesa entre 2020 e 2025.
70 anos de Eurovisão
Giuseppe Sollazzo trabalha com dados e tecnologia no sector público britânico e é autor do projeto puntofisso.net. Decidiu analisar 70 anos de letras do Festival Eurovisão da Canção e transformou-as numa peça interativa de scrollytelling.
Já há muito que se diz que o Festival Eurovisão é muito marcado pela realidade sócio-política nas votações e que as roupas são uma montra incrível de como a moda evolui ao longo dos anos. Este artigo mostra como também as letras espelham o contexto. Há gráficos que medem a evolução de temas ao longo das décadas e visualizações que permitem comparar palavras entre si e filtrar por língua.

E, se como eu, ainda têm a canção “Bara Bada Bastu” da Suécia (2025) na cabeça, fiquem a saber que a palavra “sauna” aparece 61 vezes – talvez para compensar o facto de nunca ter surgido na letra de nenhuma outra canção do Festival.







