Stan Garfield

Stan Garfield

Stan Garfield é uma referência da gestão de conhecimento mundial; sem sombra de dúvida, uma das pessoas que mais contribuiu e contribui para o desenvolvimento e promoção da gestão de conhecimento. É um enorme prazer poder partilhar esta entrevista que fizemos por escrito, numa troca que foi, ela própria, exemplo da sua generosidade.

O Stan tem muitos, muitos textos online e há muitas, muitas entrevistas consigo. Há pouco que ainda não tenha dito ou escrito no que diz respeito à gestão de conhecimento. Assim, apesar do entusiasmo por o poder entrevistar, quando preparava esta entrevista deu-me um nervoso miudinho: “O que é que vou perguntar ao Stan?”
Foi então que decidi usar alguns dos seus interesses pessoais como trampolim.

Formou-se na Washington University (St. Louis, MO) com uma licenciatura em Matemática Aplicada e Ciências da Computação e começou o seu percurso profissional no mundo dos computadores. Como é que o seu caminho veio dar à gestão de conhecimento (GC)?

Em 1971, quando entrei na Northwestern University em Evanston, Illinois, inscrevi-me na Medill School of Journalism. O meu objetivo era tornar-me jornalista de rádio.

Sempre gostei de partilhar notícias, música e desporto através de jornais e estações de rádio. Em pequeno, publiquei um jornal de uma página com cinco cópias feitas com papel químico. No sexto ano, escrevia no quadro preto factos interessantes e notícias para partilhar com os outros alunos. No secundário, operava as minhas próprias estações de rádio.

O desejo de partilhar estava profundamente enraizado em mim, e sentia-me sempre bem quando outros mostravam interesse no que eu partilhava.

Também criei e participei em comunidades, incluindo um clube de colecionadores de moedas, um clube de radioescuta e um grupo de jogadores de bridge.

Depois de frequentar uma aula introdutória de programação no meu primeiro ano, fiquei viciado. Transferi-me para a Washington University e mudei do curso de jornalismo para o de ciências da computação.

Os meus dois primeiros empregos após a universidade foram em programação e gestão de computadores em universidades. Nessa altura, facilitei seminários de partilha de conhecimento, partilhei código com outras universidades e participei numa comunidade de utilizadores de Tandem Computers.

Em 1983, juntei-me à Digital Equipment Corporation (DEC) que já tinha uma iniciativa de comunidades com muito sucesso chamada VAXnotes Conferences. Fiquei conhecido por publicar boletins informativos, manter as páginas amarelas da empresa e experimentar novas formas de partilhar documentos. Isto fez de mim a escolha óbvia para iniciar o primeiro programa de gestão de conhecimento da DEC.

O meu duplo passado de jornalismo e ciências da computação mostrou-se ideal para a gestão de conhecimento. Sou hábil a comunicar com outros e sinto-me confortável a experimentar novas tecnologias.

Escrevo blogues e publico livros há 20 anos. Tornei-me jornalista, afinal.

Eu também tenho uma licenciatura em Ciências da Computação. Como, para mim, a GC nunca foi uma “coisa” tecnológica, por vezes tenho dificuldade em explicar como surgiu a minha paixão pela GC. Que ligação vê entre a GC e o mundo dos computadores?

Ao longo da vida, dominei uma variedade de ferramentas, tudo desde FrontPage ao SharePoint ao MediaWiki ao Yammer (agora Engage) ao Groups.io (precedido pelo Yahoo! Groups) às ferramentas de IA Generativa (por exemplo, Claude e ChatGPT).

Quando as pessoas dizem que a GC é só sobre as pessoas, respondo que pessoas, processos e tecnologia são todos importantes, e precisam de ser mantidos em equilíbrio.

Pode fazer-se GC sem tecnologia, mas não muito bem. Dependemos de computadores para muitas das nossas ferramentas facilitadoras, por isso ser bom com tecnologia é bastante útil.

A tecnologia apoia as pessoas e processos, não o contrário, mas esse suporte é crítico.

Pelo que percebo, tem música nas veias. Se precisasse de descrever a GC a uma organização, a que género musical de música a compararia?

Poderia escolher qualquer estilo, mas vou usar o jazz. Aqui está uma comparação usando as minhas cinco atividades-chave da GC:

Partilhar: Os músicos partilham ao atuar, gravar e publicar música. Também partilham entre si ao convidar outros músicos para atuar e gravar juntos, ao trocar solos e ao ensinar técnicas.

Cinco atividades-chave da GC (de Stan Garfield)
Modelo de Stan Garfield

Inovar: A improvisação é uma grande parte do jazz, onde os músicos criam enquanto atuam. Ao longo do tempo foram sendo inventadas novas formas de jazz, com estilos que vão do bebop ao avant-garde ao fusion ao smooth jazz.

Reutilizar: O jazz é frequentemente construído sobre versões de standards antigos, canções pop e melodias de outros géneros. Depois descola da melodia básica para voos de improvisação. Utilizar canções conhecidas dá ao público um quadro de referência como ponto de partida, e permite-lhes acompanhar as voltas e reviravoltas completamente diferentes que as canções depois dão nas mãos dos músicos.

Colaborar: O jazz depende da colaboração entre os músicos – escrevem, atuam e gravam juntos. Precisam de manter-se juntos no ritmo, nas mudanças de tom e nas transições entre solos. Um bom exemplo é o álbum Collaboration de George Benson e Earl Klugh, dois dos meus guitarristas de jazz favoritos.

Aprender: Os músicos de jazz têm de aprender a dominar os seus instrumentos, ler música à primeira vista, improvisar e atuar perfeitamente como parte de um grupo. Têm de aprender canções ouvindo, praticando, ensaiando e atuando repetidamente. Quem ouve também tem de aprender sobre jazz. O meu irmão David Garfield é um pianista de jazz talentoso que foi diretor musical de George Benson durante muitos anos. Eu costumava pensar que não gostava nem entendia jazz, mas isso mudou quando o David se juntou à banda do falecido Freddie Hubbard, um dos grandes trompetistas de jazz de todos os tempos. Depois de os ver atuar duas vezes, aprendi a apreciar o jazz.

Senti-me muito honrada por ser incluída na sua série de Profiles in Knowledge. É outra das suas principais contribuições para o mundo da GC. Conte-nos um pouco sobre ela e sobre algumas das escolhas que fez.

Quando comecei a série Profiles in Knowledge em 2017, os meus artigos iniciais incluíam pessoas de cada uma das organizações com que tinha estado envolvido. Depois passeia a honrar as memórias de líderes de pensamento já falecidos, depois as minhas primeiras influências, e depois um leque variado de pessoas respeitadas.

Pelo caminho fui desafiado a explicar por que não tinha selecionado um grupo mais heterogéneo. Isto levou-me a procurar ativamente mais mulheres, pessoas de cor e profissionais de GC internacionais para apresentar.

Quando comecei uma nova série de KM Thought Leaders para a Lucidea, decidi focar-me inicialmente em mulheres, e depois mudar para homens mais tarde.

Quando a Lucidea publicou o meu livro Profiles in Knowledge no ano passado, estava dividido igualmente: 60 homens e 60 mulheres. Não começou por ser tão equilibrado, mas fico contente que tenha acabado assim.

Também agrupei os perfis em 20 categorias. Isto permite aos leitores que conheçam algum dos líderes de pensamento descobrir outros com focos semelhantes.

Muitas das pessoas sobre as quais escrevi disseram que o meu perfil é uma melhor curadoria do seu trabalho do que qualquer coisa que tenham. Por vezes até ligam o seu perfil ao meu para poderem tirar partido do que escrevi. Esse é um resultado gratificante.

O Stan é um prolífico escritor (ou será que devo dizer partilhador?) e, pela forma como o faz, é também um conector extraordinário. Quando falámos recentemente descreveu estas como duas características de um líder de pensamento. E quanto aos líderes de equipas? De que forma é que partilhar e conectar são importantes para um líder de equipa?

Partilhar e conectar eficazmente são essenciais para todos os líderes.

Escrevi: “Practice and reward caring, sharing, and daring – caring for others, sharing what you know, and daring to try new ideas”.

Partilhar mantém a equipa informada, fortalece competências e permite reutilização. Também modela este comportamento para que os membros da equipa o possam imitar.

Valdis Krebs, um líder de pensamento em análise de redes sociais, escreveu: “The basic skill of network weaving is closing triangles”. Fazê-lo, liga melhor os membros da equipa uns aos outros, a outros que os podem ajudar, e a comunidades onde podem aprofundar o seu conhecimento. Isto ajuda a melhorar o desempenho, tanto para a equipa como para as pessoas que a compõem.

No outro dia, falámos da quantidade de conhecimento que partilha gratuitamente online. O que motiva esta generosidade com o seu conhecimento?

Partilhar ajuda-me a aprender porque preciso de fazer investigação, sintetizar múltiplos pontos de vista e cristalizar as minhas ideias. Melhorou as minhas competências de escrita e oratória. Melhorou a minha marca pessoal, criando oportunidades para apresentar em conferências e para publicar.

Paying it forward através da partilha que faço já me ajudou algum tempo depois. É uma forma de dar o exemplo para que outros partilhem, o que acaba por também me beneficiar. Aumenta o meu moral: sinto-me melhor quando posso ajudar os outros e quando os outros gostam do que partilho. Hoje recebi um email a dizer: “I enjoy your newsletter and read through it every week”. Esse tipo de feedback ajuda a manter a motivação para continuar a escrever e a partilhar.

A Comunidade SIKM Leaders é outra das suas iniciativas. Desde 2005 que a gere, conectando profissionais de GC de todo o mundo. O que mais o surpreendeu sobre construir e sustentar esta comunidade ao longo de duas décadas?

Surpresas positivas: A comunidade continua a crescer constantemente todos os anos. O volume de publicações está na medida certa: nem muito silencioso nem muito barulhento. São regularmente iniciados novos tópicos e recebem numerosas respostas úteis. Continuamos a ter oradores excelentes para as nossas chamadas mensais, com um calendário que se estende por mais de um ano. Os membros comportam-se admiravelmente e temos uma cultura comunitária positiva que não intimida nem inflama os membros.

Surpresas negativas: Para uma comunidade de profissionais de GC, apenas 5% deles alguma vez publicaram. Apenas 20 pessoas aparecem para as chamadas mensais (mais ouvem a gravação, mas nem mesmo 10% dos membros fazem isso). Por vezes as pessoas que publicam não parecem prestar atenção às respostas que recebem. Um exemplo recente é um membro que perguntou sobre que certificações de GC seguir. Múltiplas respostas ponderadas sugeriram que certificações podem não ser a resposta, mas mais tarde, o autor original voltou com: “Fiz a Certificação AIHR LD, mas preciso de GC”. Esta resposta mostra uma falha em aceitar o bom conselho que lhe tinha sido oferecido. As mesmas perguntas sobre modelos de maturidade, certificação e ROI repetem-se com regularidade, dando a entender que o nosso campo de GC não está a progredir.

Modelo SHAPE do Stan Garfield
Modelo SHAPE do Stan Garfield

Pelo menos no que diz respeito à GC, o Stan personifica o princípio de fazer o que diz – através da sua escrita prolífica, da construção de redes, mentoria e muito mais. Tenho a certeza de que concorda que estas não são práticas exclusivas dos profissionais de GC, mas sim comportamentos que os profissionais de GC devem promover e encorajar nas organizações em que trabalham. No entanto, a cultura organizacional, os processos e as práticas muitas vezes atrapalham. O que é que mais contribui para que a GC desafine?

Aqui estão alguns problemas principais:

  • Uma cultura que é prejudicial à partilha de conhecimento.
  • Liderança que não apoia a GC ou apenas a apoia com palavras.
  • Um ciclo interminável de iniciar e encerrar GC.
  • Mover a GC de uma área para outra.
  • Não usar as ferramentas certas para o trabalho – por exemplo, Teams em vez de Engage para discussões em comunidades.
  • Não aprender com 30 anos de experiência em GC, mas em vez disso, cometer os mesmos erros mais do uma vez e não tirar partido do que já foi aprendido e provado.
  • Agarrar-se a modas, clichés cansados e aos últimas coisas novas.
  • Não adotar práticas provadas como comunidades de prática enquanto se perseguem abordagens menos bem-sucedidas como “expertise locators”.

Qual é a melhor forma de harmonizar a GC?

Harmonizar a GC pode não ser possível, mas podemos aproximar-nos disso se adotarmos alguns padrões, comunidades e princípios comuns.

O standard ISO 30401 de GC não pegou como se esperava.

Nem todos na GC estão cientes ou pertencem à SIKM Leaders Community.

Se todos os profissionais de GC ajudassem a melhorar e a adotar o standard, e se todos prestassem atenção à SIKM e publicassem lá em vez de fazer perguntas de forma privada ou em publicações dispersas do LinkedIn, estaríamos melhor.

Antes de iniciar qualquer nova iniciativa ambiciosa de GC, devemos perguntar: “Isto é necessário? Já foi feito? Há um esforço existente ao qual me posso juntar em vez de começar um novo?”

Hoje em dia é quase impossível falar de GC sem falar de IA. Como se sente sobre a IA no que diz respeito à GC?

Sinto-me tão altamente otimista como profundamente cético sobre a IA. Otimista que a IA será incrivelmente útil, e descrente que os profissionais de GC investam o tempo necessário para aprender a tirar o total partido do seu potencial.

A GC tem o potencial de florescer por causa da IA, mas é natural que os profissionais de GC sejam distraídos e assoberbados pelo hype à volta da IA.

A IA vai beneficiar por causa da GC, e a GC vai beneficiar por causa da IA.

O que devem fazer os profissionais de GC quando se trata de IA?

Os responsáveis pela GC deveriam estar a desenvolver casos de uso detalhados e práticos para IA na GC e deveriam tornar-se profundamente proficientes no uso eficaz da IA.

Dentro do contexto da GC, neste momento, o caso de uso mais entusiasmante para a IA é criar experiências altamente interativas com “réplicas” de especialistas porque isso permitirá a retenção prática de conhecimento.

Para um excelente exemplo do potencial da IA, vejam o seminário interativo de IA do meu amigo Arnold Kling sobre interdependência humana, The Social Code.

Viu muitas vagas de GC; viu muitas a GC com muitas caras. Onde vê a GC agora? Para onde a vê caminhar?

Penso que estamos exatamente onde sempre estivemos: num ciclo de programas de GC que se iniciam numas organizações enquanto noutras são reduzidos ou eliminados.

A GC nunca foi institucionalizada, por isso está sempre sujeita a este ciclo. A IA representa tanto uma oportunidade como uma potencial maldição para a GC. Se conseguirmos aproveitar a IA para melhorar a GC e usar a GC para tornar a IA mais eficaz, então isso é uma grande oportunidade para a nossa área. Mas, se a IA levar as organizações a decidir que pode substituir a GC, então pode tornar-se uma ameaça existencial.

Para concluir, e usando o seu chapéu de mentor, que pergunta deixaria como convite de reflexão para mim e outros profissionais de GC?

O que tenho estado a evitar, relutante em tentar, ou com medo de fazer? Como posso superar esta resistência e enfrentar o que anteriormente não consegui ou não quis fazer? Quem me pode ajudar com isto? Como posso ajudar outros que têm questões similares?

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