Bruce Boyes

Bruce Boyes

Bruce Boyes é um profissional de gestão de conhecimento (GC), gestão ambiental e educação com mais de 40 anos de experiência. É reconhecido mundialmente pelo seu trabalho, que extravasa os limites do país em que vive: a Austrália.

Talvez seja mais conhecido como editor, escritor principal e diretor da RealKM Magazine, uma publicação online criada há 10 anos para promover boas práticas de GC através de “artigos concisos e orientados para a prática”.

No mês passado recebeu o prémio internacional KM Award 2025 (Categoria Individual) da KMAustria e da Knowledge for Development Partnership, K4DP, pelo seu trabalho: pela RealKM Magazine; por promover a Agenda Knowledge for Development; por conseguir em parceria com a K4DP e a comunidade de prática global Knowledge Management for Development – KM4Dev – um reconhecimento de múltiplos conhecimentos no Pacto da ONU para o Futuro; e também pelo KM Triversary Forum.

Para o caso de estranhar a expressão “múltiplos conhecimento” (“multiple knowledges“), Bruce Boyes diz que ‘múltiplos conhecimentos’ significa o conhecimento mais alargado possível de tantas pessoas quanto possível. A sua importância no desenvolvimento sustentável é destacado no artigo “Why a multiple knowledges approach is essential to the success of the UN Pact for the Future and Sustainable Development Goals (SDGs)“.

Mas vamos então à entrevista há muito devida com Bruce Boyes: sobre gestão de conhecimento, passando pelo pouco reconhecimento da GC, e terminando com uma breve reflexão sobre a inteligência artificial e a GC.

A RealKM celebrou o seu 10.º aniversário com uma grande celebração. Porquê RealKM? O que foi que o levou a escolher “real” como nome, como lema?

Muito obrigado, Ana, pela oportunidade de ser entrevistado!

A RealKM é a iniciativa do nosso fundador Stephen Bounds, e o nome que ele escolheu vai ao cerne do nosso propósito.

Quando as pessoas ouvem falar da RealKM Magazine, muitas vezes assumem erradamente que somos um serviço de notícias de gestão de conhecimento (GC). Esse não é de todo o nosso propósito.

Quando fundou a RealKM, o Stephen reconheceu que para a GC se desenvolver plenamente como profissão, a sua prática precisa de estar firmemente fundamentada em evidências sobre o que funciona e o que não funciona. A experiência profissional é um aspeto desta base de evidências, mas a GC depende demasiado disso, e não se apoia o suficiente em resultados de investigação. Isto infelizmente distingue a GC de outros campos, e não de forma positiva.

Logótipo da Real KM

Fornecer esta investigação às comunidades de GC e de gestão através de artigos concisos e orientados para a prática é o propósito fundador do Stephen para a RealKM, e o “real” na RealKM.

Tivemos muito sucesso nesta comunicação de investigação em GC, com mais de 2 milhões de visualizações dos nossos mais de 2 500 artigos. Mas infelizmente, ao mesmo tempo, a investigação de investigadores de GC de topo mostrou que a distância entre a investigação e a prática em GC está a aumentar, não a diminuir.

Foi esta fenda crescente que me motivou a iniciar a organização do KM Triversary Forum que se realizou em outubro, em colaboração com duas outras organizações que também estão a liderar ações para fechar a distância entre investigação e prática em GC: a comunidade de prática global Knowledge Management for Development, KM4Dev, e o Knowledge Management for Development Journal. Na sequência do sucesso que o Forum teve, ao longo de 2026 a RealKM vai lançar novas atividades com o objetivo de levar os resultados do Fórum em frente.

A qualidade do conteúdo da RealKM e a sua longevidade atuaram como um íman para profissionais de gestão de conhecimento e gestão de informação (GI) em todo o mundo. Como descreveria a comunidade de profissionais de GC e GI? Há diferenças?

Os profissionais de GC veem diferenças entre profissionais de GI e GC, com os profissionais de GI a focarem-se mais em conhecimento explícito, por exemplo o estabelecimento e gestão de bases de conhecimento organizacional, e os profissionais de GC mais em conhecimento tácito, por exemplo processos para que as pessoas partilhem conhecimento. Esta é uma simplificação excessiva.

Por exemplo, os profissionais que trabalham nos serviços de biblioteca e informação (Library and Information Services – LIS) são vistos como profissionais de GI, mas os bibliotecários são pioneiros no estabelecimento de makerspaces em bibliotecas que estão à frente no desenvolvimento de competências comunitárias através das atividades de GC de mentoria e partilha de conhecimento. E parece que apenas os profissionais de GC fazem a distinção entre GI e GC, já que há muitas ofertas de emprego anunciadas como de GC e que, na verdade, são de GI. Isto significa que a GC e o que ela envolve ainda não é bem compreendido pela comunidade em geral.

Também existem diferenças dentro da GC que não são bem reconhecidas. Quando os profissionais de GC falam sobre GC, podem na verdade estar a falar sobre apenas um aspeto da GC – a GC organizacional – mesmo que não o digam. Mas a GC é muito mais do que apenas GC organizacional: também inclui GC para o desenvolvimento sustentável (KM4SD), GC societal, GC pessoal e numerosas áreas especializadas de GC.

Há coisas importantes que cada uma destas diferentes áreas pode aprender com as outras. Por exemplo, a GC organizacional está focada internamente. Assim, é natural que os profissionais de GC organizacional saibam muito menos que os profissionais de KM4SD sobre como envolver o conhecimento de partes externas interessadas.

Também existem diferenças culturais na comunidade de GC que precisam de ser muito mais reconhecidas. A RealKM e a KM4Dev têm trabalhado nisto ao ser pioneiras da descolonização do conhecimento, o tema que define a sexta geração de KM4SD. Ainda há muito mais para fazermos, e a descolonização do conhecimento também precisa de ser um foco na GC organizacional.

Desde 2012, passei mais de uma década a viver e trabalhar na China, que é uma cultura de alto contexto, comparada com culturas de baixo contexto como o Reino Unido e a Austrália. Em culturas de alto contexto, muito do significado é comunicado através do contexto, por exemplo comportamentos, em vez de palavras. Isto tem grandes implicações para as abordagens de GC, mas neste momento muitos profissionais de GC ocidentais presumem muito erradamente que as suas abordagens de baixo contexto funcionam em todo o lado. Não funcionam. O livro Beyond Culture, de Edward T Hall, é uma leitura importante sobre este tema.

É um professor experiente, tanto na Austrália como na China. De facto, foi premiado com um Certificate of Accomplished Teacher pela excelência no ensino no programa de Global Foundation Studies na Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW). Adoraria saber o que pensa sobre como as universidades abordam a GC como uma disciplina que devem abraçar enquanto organizações, não apenas como disciplina académica.

Esta é na verdade uma questão bastante problemática.

Para os investigadores, a própria universidade é muitas vezes um conveniente foco para a sua investigação. Por isso há bastante investigação que olha para vários tópicos da GC em processos e estruturas universitários. Porém, como esta investigação não foi encomendada pelos líderes universitários ou da faculdade, muito poucas das descobertas e recomendações estão a chegar à prática universitária. Isto significa que há uma necessidade de sensibilização sobre GC direcionada a líderes universitários.

Ainda assim, as minhas experiências das práticas de GC das universidades não me levam a avaliá-las como más. A partilha de conhecimento entre as áreas administrativas e de investigação tem sido razoavelmente boa, em particular na China onde as universidades operam comunidades muito eficazes de partilha de conhecimento de professores e alunos que ultrapassam silos nas plataformas locais WeChat e DingTalk.

O seu perfil no Medium afirma: “It’s about people: helping people to learn, know, participate, act and interact has been the focus of my diverse career.” A Gestão Ambiental é uma parte significativa dessa diversidade. Como traz a GC para a Gestão Ambiental?

Uma grande coisa que a GC traz para a gestão ambiental e para o que é mais comumente referido na Austrália como gestão de recursos naturais (natural resource management – NRM) é estratégia de conhecimento. Esta foi na verdade a minha entrada na GC como uma disciplina específica.

Depois de uma primeira carreira em aviónica e complexidade da aviação, e desde que comecei uma segunda carreira em gestão ambiental e NRM, fazia muito do que viria a conhecer como GC mas sem me aperceber. Por causa disto, em 2006 candidatei-me com sucesso para trabalhar numa nova iniciativa de conhecimento da Land & Water Australia, ou LWA, na altura uma grande organização nacional no setor. O novo programa reuniu profissionais de NRM e, como vim a perceber, profissionais de GC, de que nunca tinha ouvido falar. E sim, isto volta a destacar o grande problema da GC em não ser do conhecimento geral!

Como parte deste que viria a ser o premiado LWA Knowledge for Regional NRM Program, liderei o desenvolvimento de um processo de estratégia de conhecimento para as 56 regiões de NRM em toda a Austrália. Este excelente processo de estratégia de conhecimento foi desenhado por Shawn Callahan e Mark Schenk da empresa de consultoria Anecdote, que desde então se especializou em storytelling empresarial.

A Gestão Ambiental requer muito trabalho com comunidades locais. Essas comunidades são de pessoas que podem ou não estar dispostas a aprender e a mudar. No entanto, geralmente estão ansiosas por participar, possuem conhecimento local e precisam de ser ouvidas. Há paralelos com o trabalho que faz dentro das organizações? Quais são as suas abordagens ou técnicas preferidas para este aspeto do trabalho?

Acabámos de falar sobre como a GC pode beneficiar a gestão ambiental e a gestão de recursos naturais. Mas também há coisas importantes que podem ser aprendidas no sentido inverso. A complexidade é agora uma realidade para as organizações. Ouvimos muito sobre VUCA – volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade – e mais recentemente BANI – frágil, ansioso, não-linear e incompreensível. As organizações estão a afogar-se nisto. A situação geopolítica global está altamente instável. No ano passado muitas empresas viram-se subitamente confrontadas com a sua realidade financeira atingida por tarifas enormes. As realidades climáticas estão a extinguir as indústrias de combustíveis fósseis insustentáveis. E a inteligência artificial (IA) é uma realidade incerta em rápida evolução para todas as organizações.

Há muito que a gestão australiana de recursos naturais é líder na gestão em contexto de complexidade. A NRM é altamente complexa, com questões contestadas em relação ao uso de recursos versus conservação, rodeada por teias complexas de sistemas sociais. Desenvolvemos abordagens e ferramentas eficazes para gerir face a esta complexidade, com sistemas adaptativos complexos parte do meu material do curso de Mestrado em Gestão Ambiental. De facto, a nossa liderança nisto foi reconhecida em investigação pelo Overseas Development Institute, ODI, sediado no Reino Unido. Para ajudar os profissionais de GC a aprender com este conhecimento, na RealKM Magazine tenho estado progressivamente a apresentar estudos de caso de complexidade da minha experiência, e planeio continuar esta série em 2026.

Na sua capacidade de escritor principal da RealKM Magazine, ao longo dos anos pesquisou e escreveu mais de 160 artigos baseados em investigação e mais de 300 resumos de investigação em GC. Baseando-se neste trabalho extensivo, como vê a GC a evoluir?

Espero que progressivamente, se consiga reduzir a distância entre investigação e prática em GC – o propósito da RealKM e o foco do KM Triversary Forum. Também espero que a GC esteja mais consciente da sua diversidade e das oportunidades de aprendizagem que isto proporciona. Já estamos a ver sinais muito positivos disto. O evento KM Trends 2025 da KMGN foi promovido como reunindo todas as redes de GC, mas na realidade reuniu apenas redes de GC organizacional, o problema de que falei anteriormente nesta entrevista. No entanto, o evento KM Trends 2026 realizado recentemente incluiu oradores tanto de GC organizacional como de KM4SD, um grande passo em frente.

O que o entusiasma ou assusta mais nessa trajetória?

O que mais me assusta sobre a GC neste momento é a IA. Isto não é porque estou a catastrofizar a IA ou porque não vejo valor na IA, mas porque tem recebido demasio destaque na GC quase sem que estejam em vigor as medidas necessárias de gestão de risco.

Todos na GC devem estar bem cientes do ciclo de hype da Gartner (falado na RealKM Magazine), que mostra como as expectativas sobre novas inovações tecnológicas são inicialmente demasiado exageradas – subindo o pico de expectativas inflacionadas – depois caem na vala da desilusão, antes de finalmente alcançar a encosta do esclarecimento.

Mas, e para grande desilusão, há pouca consciência de como este ciclo de hype se relaciona com o que está a acontecer com a IA na GC, mesmo que a GC esteja claramente neste momento a subir o pico de expectativas inflacionadas. A vala da desilusão está a chegar, e o que provavelmente vai acelerar a GC muito rapidamente em direção ao fundo dessa vala é a utilização na GC de falsas alucinações da IA. Já estamos a ver profissionais de GC a usar resultados alucinados, bem como organizações de GC a depender de informação falsa nas suas atividades.

Por exemplo, recebemos para o KM Triversary Forum contributos com conteúdo alucinado (que, para crédito dos envolvidos, foi depois corrigido), e uma organização de GC não verificou adequadamente informação que recebeu, levando-a a publicar artigos que promoviam serviços de fraude académica ligados a crime organizado grave, como abordo no artigo “Troubling case highlights that the KM community lacks key capabilities needed for safe AI use“.

Tudo isto pode ser prevenido através do desenvolvimento e implementação de modelos para a utilização ética e responsável da IA, modelos esses que incluam processos para verificar a precisão dos resultados antes de os usar. Este foi o foco da minha palestra recente no KM Trends 2026 e que liga à lista extensa e crescente de recursos de IA ética e responsável que escrevi e compilei na nossa longa série de textos sobre IA na GC e GC na IA.

Nota: A versão original desta entrevista, em inglês, está publicada no LinkedIn.

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