Foto do livro The Art of Insight

The Art of Insight

Este é um livro sobre visualização de dados. Um livro sobre como esta mescla entre arte, ciência e técnica é vista e praticada por mais de 20 profissionais à volta do mundo.

Sou apaixonada por trabalhos que, alavancados nos dados, nos ajudam a ver e entender o que nos rodeia, nos facilitam o processo de tomada de decisão, nos despertam a curiosidade, nos inspiram, nos acordam. Sou apaixonada pela possibilidade de mostrar dados de tal forma a facilitar o entendimento ou a acordar emoções.

Ganhei consciência para este tema quando trabalhava na NHS Modernisation Agency (parte do Ministério da Saúde britânico) e um colega me mostrou o trabalho do Edward Tufte.

Desde então procuro pensar um pouco fora da caixa no momento de representar dados – ainda que às vezes os faça mostrando os dados justamente como caixas.

Enquanto curiosa no tema há muito que exploro diversas formas de mostrar dados nos meus projetos.

Mapa de entrevistas do podcast KMOL
Mapa interativo dos entrevistados do podcast KMOL e dos temas de que falaram

Nos últimos anos, tenho procurado desenvolver o meu conhecimento sobre visualização de dados. (No final deste artigo, partilho alguns dos podcasts, blogues, sites e livros de que mais gosto.)

Há algum tempo, comecei a ouvir o The Data Journalism Podcast de Alberto Cairo e Simon Rogers e a seguir o Alberto Cairo no LinkedIn. Aí soube do livro The Art of Insight que publicou este ano e senti-me tentada a lê-lo.

Não se trata de um livro para ensinar os conceitos, os princípios, as técnicas ou ferramentas para visualização de dados. É um livro para nos despertar para o que é a visualização de dados e para os seus propósitos, nas suas múltiplas formas, tons e linguagens.

Em cada capítulo, o autor dá-nos a conhecer um profissional de visualização de dados: o seu percurso académico e profissional, a sua motivação para abraçar a profissão ou a série de acontecimentos que o empurraram até ela, a forma como olha para a visualização dos dados, o propósito dos seus trabalhos, as técnicas e linguagens que utiliza. E faz isto com base em conversas que teve como cada um deles, reproduzindo várias partes dessas conversas nas quais lemos histórias pessoais e mergulhamos nalguns dos seus trabalhos mais marcantes.

Entre os profissionais entrevistados estão o português Pedro Cruz e o brasileiro Simon Ducroquet.

Para Alberto Cairo:

  • desenhar informação é parte ciência e parte arte;
  • a visualização responde a um desejo instintivo de organizar a complexidade caótica da realidade e ao desejo das alegrias que resultam de a ver e entender melhor;
  • ler e criar mapas, gráficos e diagramas foi a forma que encontrou de entender e interagir com o mundo.

“I’ve come to think, teach, and talk about visualization not as series of allegedly universal principles, but in terms of ad hoc reasoning. This reasoning is informed by aims, constraints, conventions, trade-offs, likely outcomes, culture, personal experience and taste, and by an ever-imperfect but ever-evolving body of scientific knowledge.” (p 27)

Não me atrevo a resumir as ideias deste livro porque não é um desses livros de resumir. Partilho antes algumas frases que sublinhei enquanto lia.

  • uma conversa é “an unrehearsed intellectual adventure” (citando Michael Oakeshott)
  • “the story in these graphics is (…) a shared experience.” (Shirley Wu, p 11)
  • “[Ed] Hawkins’ sole purpose was to create an iconic data-driven image to get conversations started.” (p 25, in the context of the “Show Your Stripes” project)
  • “being boring – or clear or efficient – isn’t a property of things, but of the relationship between those things and the people who experience them” (p 26)
  • “facts are usually not enough to inform or to change minds” (p 103)
  • “We need to fear the consequences of our work more than we love the cleverness of our ideas.” (citando Mike Monteiro, p 146)
  • “Mnemonic diagrams interact with preexisting knowledge. They may prompt remembrance thanks not only to what they show, but also to what they omit.” (p 162)
  • “I see what I do as visual engineering for analytical thinking” (Deniz Cem Önduygu, p 167)
  • “Our job is to find stories in the data, rather finding data for the story.” (citando Erin Davis, p 219)

“[the designers you’ve met in this book] know that choices in visualization should be based on the peculiarities of the data that we wish to represent, on the nature and purpose of the project we intend to design – visualizations can be exploratory, expositive, explanatory, artistic, emotive, prosaic, poetic, and more – and on many constraints related to intended audience, publishing platform, and so on.” (p 277)

Em jeito de conclusão, resta-me dizer que, numa altura de tanta polarização no debate, de tantas fake news, de tantas opiniões formadas em tão poucos segundos, pouco será mais importante do que a capacidade de comunicar dados de qualidade de uma forma útil, simples e impactante.

É um livro que devia ser lido por jornalistas, cientistas, designers, matemáticos, e também gestores de conhecimento. Afinal, se os dados são tão frequentemente vistos como o primeiro degrau na pirâmide do conhecimento, é importante que consigam ser devidamente tratados e devidamente entendidos para que possam dar origem a informação e conhecimento de qualidade e valor.

O único ponto negativo que encontro neste livro é a qualidade da encadernação e o aspeto gráfico do próprio livro: é uma pena um livro tão belo ter um grafismo tão básico, a la relatório de trabalho escolar, e uma encadernação tão fraca.

Conteúdos recomendados

Como prometido, aqui fica uma lista de recursos que recomendo:

Sobre o livro:
The Art of Insight: How Great Visualization Designers Think
Alberto Cairo. John Wiley & Sons, USA, 2024.